Um Caminho sobremodo excelente...



A cada dia que passa sou mais profundamente invadido pela certeza de que o caminho da vida é o caminho da paz e da confiança.

Todavia, ao mesmo tempo em eu que constato isto, também vejo que somos viciados em dor e sofrimento. De fato, a maioria de nós se sente mal quando está se sentindo bem por muito tempo—a maior parte das vezes inconscientemente. Nesse caso, logo o se sentir bem se torna um nada sentir. Então vai-se em busca de um novo sentir...

Isto porque este “sentir-se bem” contraria nossa noção de virtude religiosa—e que habita o nosso inconsciente coletivo—, visto que na nossa alma coletiva toda virtude está associada ao sofrimento.

É moral sofrer!

É imoral não sofrer!

Assim, até o amor que deveria ser a alegria do ser—é experimentado como sentimento que se auto-valida pela capacidade de sofrer.

Desse modo, o amor deixou de ser a vida e passou a ser um sentimento na vida. E, para um ser que sofre quando não sofre, amor tem que ser a mais profunda expressão da capacidade de sofrer.

Ora, mas não está dito que o amor tudo sofre?

Sim, o amor tudo sofre porque no verdadeiro amor tudo é nada e nada é tudo, pois o amor vem antes do tudo ou do nada, posto que ele é absoluto. E o absoluto É. "É", vem antes de tudo ou nada. "É" vem antes de todo ser ou não ser. É de É que procedem todas as coisas, tanto todas as coisas do tudo, quanto todas as não-coisas do nada.

Porque Deus é amor tudo e nada provêm de Deus. Assim, Deus não é Tudo e nem é Nada. Nele o Tudo e o Nada são as coisas que não são. E assim nasce o ser e o existir.

O ser nasce do absurdo, e o existir nasce do absurdo do ser!

No inicio eu estava falando do caminho da vida e como ele é fruto de paz e confiança; então, de súbito, cheguei até aqui. E por que?

Porque paz e confiança nascem da fonte dessa percepção de Deus. De Deus que é amor que tudo sofre, por isso nada sofre.

Digo isto porque me parece que toda bondade é buscada como caminho de sofrimento. E se não for assim, a maioria não se sente bem. O bom tem que sofrer.

Por outro lado, o mal tem todo direito ao prazer.

Assim, é possível estar se sentindo mal por estar se sentindo bem e sentindo bem por estar se sentindo mal.

Por que será que ao que ao mau se permite o que é prazeroso e ao bem só se concede o que é doloroso?

Por que será que nos sentimos indignos quando nosso bem estar não nos custou nada?
Ou por que será que damos valor de benção ao bem-estar e de maldição ao mal-estar?

Existe bem-estar e mal-estar? Ou será que é apenas uma invenção nossa? Ou mesmo uma sujeição nossa aos deveres morais que se disfarçam de sentimentos?

É claro que em Jesus a dor, dói; e que a alegria se mostra como prazer. No entanto, Ele não carrega dentro de si coisa alguma que não fosse amor. Em Jesus a gente pode ver todas as caras do amor. Isto porque Dele procedem da Fonte Única do Amor todas as possíveis aplicações do amor nas situações de contradição desta vida.

Assim, Ele tanto sofre Tudo quanto sofre Nada; e tanto sofre Nada quanto sofre Tudo. Por isto é tão sem emoção quanto lhe dizem que Lazaro morreu e tão cheio de emoção, e até de choro, quando o vê morto. Ora, amava o Senhor a Lázaro... Sim, amava-o com esse amor tudo-nada.

O caminho do homem, no entanto, viaja do estar-bem para o estar-mal. O caminho da verdadeira vida, por seu turno, chama a todas as formas de experiência-acontecida de estar bem. São as tais “todas as coisas que cooperam...”

Como eu disse, tudo isto tem a ver com paz e confiança. E isto porque paz e confiança só acontecem quando deixa de haver para nós tudo e nada, e começa a existir para nós apenas aquilo que é.

Neste eterno instante do ser, todas as coisas beijam a cara de Deus. E quem começa a faze-lo, deixa de pensar, e depois até de sentir com as categorias do bem e do mal.

Quando bem e a mal acabam é porque nasceu a confiança. Esta nunca chega sem trazer nos braços a paz.

Esta é paradoxalmente a vida abundante!


Caio

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