...E perdoa-nos as nossas dívidas...



"E perdoa-nos as nossas dívidas...assim como temos perdoado aos que nos devem."

A cada dia fica mais complexo poder manter o olhar sobre as coisas que nos cercam, e principalmente sobre as pessoas, com serenidade, ou confiança.
 Igualmente na  lei do talião,  "olho por olho e dente por dente"... manifesta-se no comportamento recorrente e comum, como justificativa de sobrevivência, e,  como conseqüência, deixa marcas profundas em nós,  com medos ansiosos, que , por sua vez,  são fruto da  insegurança, procedente da  proliferação  do culto ao egoísmo que se avoluma ao nosso redor.
Vivemos o caos, e só não enxergamos  esta realidade,  se mantivermos   um olhar surreal, diante da realidade.

 Protegemo-nos num casulo invisível, a fim de evitarmos as possíveis  vias das machucaduras feitas por toda sorte de cicatrizes emocionais, que vão tatuando o nosso ser.
Por muito pouco, pouco mesmo, perdemos o juízo, surtamos, humilhamos, magoamos,  e somos capazes das maiores  insanidades  uns com os outros, sejam elas físicas ou psicológicas.
Construímos nossa segurança em cima de pessoas, e acreditamos que nossa base sólida possa proceder de outro ser humano, que também é como nós, e neste equívoco, nossa alma vai entrando num laço  infindável, permeado por  sequelas  que nos acometem como refluxo de nossas vivências angustiantes, esquecidas e  trancadas no porão da nossa alma ,  num crescente espiral de sensações.
E sendo assim seres tão angustiados, entre "bem-mal-mal-bem", perdemos a paz de poder perdoar, sem que antes se manifeste em nós a famosa insegurança, cuja reação, é a auto-defesa. 
E quem se protege tanto do sofrimento, conseguiria facilmente entender o caminho do perdão?
 Não, pois ,   ao ato de oferecimento de perdão, atrelamos o  " merecimento "  daquele que receberá o perdão, com milhares de autojustificativas, que inconscientemente  nos liberam da culpa de não perdoar. E assim vamos  "absolvendo"  enganosamente as nossas próprias falhas.

"Senhor, eu gostaria de perdoar tal pessoa, mas o Senhor sabe o que ela tem feito a mim"...E por aí vamos.

Jesus, porém, aponta o caminho, quando ensina que se perdoarmos conforme temos sido perdoados por Ele, o perdão deixa de ser um ato de generosidade pessoal, para ser fruto de coração grato por já ter sido perdoado de qualquer falta ou dolo.

Sabendo disto, nosso questionamento e auto-exame deveria ser : Até que ponto estamos dispostos a encarar comportamentos inesperados dos outros para conosco, pela via da gratidão, se perdoar, assim como, tal qual, da mesma maneira que temos sido perdoados,  só está inserido como possibilidade real dentro desta mesma gratidão?

Entendendo desta maneira, eu não mais farei do ato de perdoar, uma concessão hedonista, que gera "prazer  egoísta"  em  perdoar, apenas pelo ato de dizer: "Liberei o perdão em mim"....ou me orgulharei por ter perdoado, ou ainda, limitarei esta atitude a maneira como o outro continua a agir comigo.

Eu apenas perdoarei, humildemente, sabendo que em mim não habita nenhum bem para me fazer perdoar por minha própria capacidade ou merecimento, mas pelo espírito de quem reconheceu que já recebeu de Deus todo o bem, e que desfrutando deste bem em mim, não há outro caminho a trilhar com o meu próximo,  a não ser o de quem já encarnou o perdão na existência.

Além disso, o ato de perdoar a si mesmo, também está inserido neste contexto, pois quem não se perdoa primeiramente das próprias faltas cometidas, não entendeu, que já foi pago alto preço, para que    por meio desta certeza , tenhamos paz em nós mesmos.

 Quando assim entendemos, nosso movimento será o de substituirmos  o grau de auto-exigência, e de justiça própria, pelo espírito grato, de quem em si mesmo,  já transita na vida sob o olhar de misericórdia infalível e constante do Pai.

Pai perdoa-nos as nossas dívidas, tal qual, da mesma forma que, sabemos que temos sido perdoados!

Que esta seja enfim a nossa oração, sem que nela habitem culpas, nem sensações de merecimento, mas apenas um coração reverente e agradecido diante de Deus.

Que nos aproximemos dele, como aquela mulher, que  prostrada ao pés de Jesus,  necessitando ser perdoada, amou, e  tendo  amado, foi amada por Ele também.  E para quem a resposta foi simplesmente amor: ...Vai e não peques mais...A tua fé te salvou!

Este é,  e sempre será,  um   caminho - oração  libertador para a alma, para a mente e para o corpo.



Ana D´Araújo
www.anadaraujo.com.br

Nenhum comentário: